A Brincadeira do “eu nunca” (ou: “Sobre uma Histerectomia”)

Sabe aquela brincadeira do “Eu nunca…”, que a gente vai dizendo coisas que nunca fez na vida e o amigo responde se fez ou não fez também, envolvendo pagamentos de tarefas? Obviamente ela se faz falando do passado, como “eu nunca roubei chocolate na loja”, “eu nunca bebi até cair” e outras coisas assim. Já tem algum tempo eu lembro dela como uma brincadeira comigo mesma, com os verbos no tempo futuro, pra amenizar coisas ruins que, de fato, nunca terei. Sim, uma bobagem pra cobrir alguma coisa que poderia se transformar em uma grande frustração. Foi assim que, em parte, resolvi o “nunca vou ficar grávida”, ao entender que, definitivamente, precisaria passar por uma histerectomia – “tudo bem, também não posso mais fazer high school nos Estados Unidos, como nos filmes de Sessão da Tarde e tô ótima”. Leseira? Total, mas me ajudou um pouco. Porque sim, passei por uma cirurgia assim há um mês.

O meu útero era uma bomba, um ET, o alien do filme…não fazia bem para mim ele estar aqui dentro. Inúmeros (sim, incontáveis) miomas, de todos os tamanhos; endometriose com força e, ainda, estava em uma posição não convencional (retrovertido) – não só por causa dos miomas, mas porque ele era assim. Sempre tive fluxo forte e senti cólicas e tentei vários tratamentos para amenizar isso. Já havia passado por uma cirurgia para retirada de miomas (eram onze, daquela vez), há dez anos. Ali ficou tudo limpinho. Mas voltaram, bem piores e maiores e trazendo seus coleguinhas (a endometriose e a posição estranha) consigo. Há uns dois ou três anos já haviam me recomendado a cirurgia para retirá-lo – fui a uns cinco médicos para saber a opinião e não se chegou a um consenso, então deixei pra lá, guardei os exames no armário e não fiz nada. Claro que só piorou.

Desta vez fui disposta a fazer o que fosse necessário para o meu bem estar. Nunca tive uma anemia, comum a quem tem miomas e minha menstruação sempre veio certinha, todos os meses. Mas senti outras coisas: uma vontade constante de fazer xixi (eu bebo muita água e passo boa parte do dia em salas com ar condicionado, no trabalho, mas já estava fora do normal), prisão de ventre, barriga inchada…tudo por causa do útero. Estava afetando outros órgãos. Mesmo assim, passei por quatro médicos desta vez e todos deram o mesmo diagnóstico, com histerectomia como solução.

O que mais me passou pela mente, claro, foi o “não poderei mais engravidar”. Não tenho filhos, sou filha única e queria muito dar um neto à minha mãe. Porém, nunca cogitei uma produção independente, não estou nem com namorado e não lembro de um período na vida realmente favorável a que eu pudesse ter filhos. Quando uma das ginecologistas consultadas me disse “com o útero que você tem, provavelmente nunca teria tido filhos, provavelmente teria sofrido abortos ou o feto e você teriam sofrido muito – e talvez a criança nascesse com problemas”, nem havia mais com o que retrucar, certo? Fora que já tenho 45 anos – há muitas mulheres que têm filho com essa idade e até mais, mas há, sim, risco para a mãe e para a criança, em ter filhos assim, “mais velha”. Então só respondi “ok, tá certo, vou fazer, me indique o cirurgião”. Meses depois, aqui estou, já “desuterada”. Na verdade, foram embora útero, colo do útero e trompas – os ovários ficaram, por questões hormonais.

Minha histerectomia pôde ser feita por videolaparoscopia (o outro modo teria sido uma cirurgia convencional, como uma cesária – foi assim a retirada dos meus miomas, em 2008). Foi no hospital Esperança, aqui no Recife, com o cirurgião Mauro Aguiar. Mais tranquila, impossível! Juro que o pós-operatório de quando tirei a vesícula, que era bem menor, foi mais chato. Sangrei por alguns dias, precisei tirar 40 dias de licença médica (ainda estou nela!), ainda tenho os furinhos da entrada da câmera e pinças (o útero é retirado por baixo, como em um parto – lembrando que tomei anestesias ráque e geral), mas estou bem. Achei que ficaria bem deprimida depois do procedimento cirúrgico, mas isso não aconteceu. Então é isso – se precisar fazer, vá e se submeta, com tranquilidade. Se em algum momento o “chamado para ser mãe” falar mais alto, adotarei. Por enquanto está tudo bem assim. Estou certa de que é só o começo de um bom período com melhor qualidade de vida para mim.

Se tiver alguma dúvida que eu, como paciente, possa responder, é só deixar aí nos comentários.